Exú é o principal mensageiro entre nós, o mundo terreno e o mundo espiritual. Nada se esconde dele e quem o segue deve ser fechado com a verdade.
Então não deveria ter sido uma surpresa quando, lavando minha louça, ouvi sua voz dizendo para ficar alerta, pois tinha algo para me revelar. Sim, lavando a louça. Muitas pessoas não fazem ideia de como a espiritualidade funciona. Acreditam que eles sentam com a gente no terreiro e conversam como quem conversa com a vizinha tomando café.
Não é assim que funciona. São mensagens, muitas vezes confusas e incompletas, que nos fazem ficar atentos e tentando desvendar o mistério.
Paro de lavar a louça, fecho os olhos e digo em voz alta: Laroyê, Exú, Exú é mojubá. O que o senhor quer me dizer, meu velho?
Um arrepio sobe pelas costas, na espinha e me faz dar um “tranco”. É, isso meio que sempre acontece. É como se fosse uma rádio sintonizando…Às vezes fica alto, claro, nítido, aí o sinal oscila, fica fraco, chiando. Então firmei a cabeça, tentando fortalecer nossa conexão.
Ao invés de me responder, eu vejo uma cena horrível. Há muito sangue. O corpo nu de uma jovem, mãos amarradas atrás das costas…É intenso. Eu ajoelho e deixo vir. Ele quer me mostrar algo. Meu peito dói, começa a me faltar ar.
Ao fundo, ele diz para eu focar e me concentrar. Respiro fundo, ainda de olhos fechados, e peço: me mostre, Exú. Me mostre o que o senhor quer que eu veja.
E eu vejo.
—-
Agora estou sentada na minha cama. Um pouco confusa e ofegante. Esses momentos sempre são muito intensos. Faz 5 anos que entrei para a Umbanda, mas o meu desenvolvimento foi bem devagar, por vários motivos. Então, sempre que tenho uma experiência como essa, eu já começo a me questionar.
Não é como se eu fosse a pessoa mais sã do mundo. Eu tenho meus transtornos, mas eu posso garantir que não sou esquizofrênica. Não é delírio ou alucinação. Acredito que somente quem realmente já viveu uma experiência espiritual intensa vai saber do que estou falando.
E é por isso mesmo que eu não podia falar nada para ninguém. Ainda — devo acrescentar. Exú me mostrou isso por um bom motivo e ai de mim se não levar a sério. Esse momento foi mais como um aviso para ficar ligada, para começar a investigar e estar pronta para agir quando necessário.
Já havia acontecido outras vezes. Bem, era quase como se eu fosse…uma detetive espiritual. Meio que aquela série antiga Medium, sabe? Só que quem fala comigo são as entidades.
Ah, é claro, eu não me apresentei. Sou Jane, tenho 27 anos, sou assistente social e detetive nas horas vagas. Sim, detetive mesmo. Eu tenho carteirinha e tudo, sou credenciada para atuar em todo o Brasil.
Então, as entidades me mostrarem cenas de crime talvez não seja algo tão fora da órbita assim. Eles sabem que tenho um pensamento bastante detalhista, lógico e tenho essa habilidade de investigação.
No entanto, não era fácil para mim. Ver a cena de crime não era “só ver”. Como médium, eu sentia a morte. Uma vida ceifada, uma alma perdida…dor e sofrimento. Minha missão agora era tentar descobrir o que era aquilo, como tinha acontecido, quem era o culpado e, claro, ajudar a pobre alma a fazer a passagem para o plano espiritual, colocando o fim no seu sofrimento.
Levanto e continuo meus afazeres, vivo uma vida normal ao longo da semana, mas sem nunca esquecer isso.
Meu trabalho como assistente social consistia em fazer algumas visitas em casas das pessoas que recebiam auxílios do governo. Era algo quase ambivalente, pois eu gostava da minha profissão, eu gostava de ajudar, mas…ver cada realidade despedaçada, desespero, dor, sofrimento, medo dos outros em situação de vulnerabilidade era desgastante em muitos momentos.
Eu tinha que lidar com a frustração de não conseguir ajudar mais, buscar uma forma de não morrer de depressão nesse trabalho. A minha psicóloga que me ajudava com isso, é claro.
De tempos em tempos, folheava algum jornal, seguia páginas de notícias, sempre procurando o que poderia ter acontecido com aquela visão que tive. Ou se havia algum caso do qual eu poderia me envolver.
Um dia, eu vejo a notícia:
Mulher é encontrada morta em circunstâncias brutais
Uma cena chocante abalou moradores de Brasília na manhã deste sábado. O corpo de uma mulher, de aproximadamente 32 anos, foi encontrado sem vida em um terreno baldio, em condições que deixaram até os investigadores mais experientes atônitos.
A vítima estava sem roupas e com as mãos amarradas para trás, indicando que pode ter sido mantida sob controle antes de morrer. A Polícia Civil ainda não divulgou detalhes sobre a causa da morte, mas fontes próximas à investigação afirmam que o cenário é de extrema violência.
Até o momento, não há suspeitos identificados nem pistas concretas sobre a autoria do crime. A área foi isolada para perícia, e moradores afirmam não ter ouvido nada suspeito durante a noite.
O caso está sendo tratado como homicídio com requintes de crueldade, e a polícia trabalha para reconstruir os últimos passos da vítima antes do assassinato.
Lembro da cena que vi em minha mente. As características parecem as mesmas. Fico nervosa por um tempo, com as antenas acesas, e minha mente começa a funcionar a mil.
O processo de investigação era mais complexo do que parecia. Na verdade, era o seu primeiro de homicídio. Precisava pensar e organizar todas as etapas e o que poderia fazer nos próximos passos.
A minha experiência com investigações era um pouco limitada. Já havia pegado dois casos, um deles tive que abandonar. O outro foi bem-sucedido. Achei uma pessoa desaparecida.
Fazia tudo sozinha, eu e meu monza contra o mundo. Minha câmera era de segunda e aqueles aparelhos super tecnológicos de espionagem eram caríssimos. Então não era nada tão glamuroso como nos filmes.
Dei uma limpada na mesa com as mãos, peguei uns papéis para anotações e comecei a escrever.
1 - O que aconteceu nesse crime? Qual a motivação? Qual foi o método?
2 - Quem era a vítima? Onde foi encontrada? Por que foi escolhida?
3 - Quem era o suspeito? Era mais de um autor do crime? Teve ajuda?
4 - Onde aconteceu o crime? Corpos encontrados em terrenos baldios raramente são executados no local
5 - Como iremos localizar o suspeito?
Eram tantas perguntas.
Não havia outra opção. Peguei o baralho cigano e coloquei na mesa na minha frente. Acendi uma vela, um incenso. Fechei os olhos, concentro a respiração.
- Cigana, por favor, fale comigo através das cartas. Vocês me mostraram esse crime, então eu entendo que vocês querem que eu me envolva neste caso. E agora? Vou fazer algumas perguntas para o baralho e peço para que me esclareçam e me direcionem.
Para a primeira pergunta, tirei a primeira carta.
Chicote.
Não era o primeiro crime desse assassino. Ele estava em um ciclo, repetindo um padrão. É sobre isso que o chicote fala. Não foi um crime impulsivo, havia repetição e prazer naquele ciclo.
A carta chicote também fala sobre sexualidade reprimida. O que isso significava? O autor ou autores do crime tinham prazer no sofrimento dos outros e faziam isso para se aliviar? Dar vazão aos sentimentos?
Sobre a vítima, saiu coração. Coração em contexto de crime? Puxei mais uma: jardim.
Isso quer dizer que ela era acessível, confiava demais e estava em ambientes públicos ou sociais. O assassino se aproximou, conquistou a confiança. Não foi um ataque de repente, em um beco escuro. Uma boate, talvez?
Respiro fundo e puxo a próxima carta. Quem era o suspeito?
Raposa.
Alguém manipulador, estrategista, cuidadoso em não deixar rastros. Conversa com as outras cartas, confirmando que era alguém preparado. Experiente até, eu diria. Isso complica as coisas. Puxo mais uma para saber se ele age só e sai a carta mulher.
Não há dúvidas, é um casal.
Sobre o local, a carta casa aparece.
Hum, então foi em um local seguro para o assassino. Onde ele sabia que podia agir sem pressa e sem ser pego. Um espaço privado, onde ele se sente no controle.
Sobre como localizar o suspeito, a carta livro aparece. Bem, quando ela aparece, algo ainda está oculto. Algo precisa ser revelado através do conhecimento. Isso deixava claro que eu precisaria arregaçar as mangas e investigar a fundo.
Fecho a mesa e encosto na cadeira, em silêncio, pensativa. Era muito, principalmente para lidar sozinha. Apesar de que sempre fora sozinha. No entanto, naquele momento, quis desesperadamente ter alguém com quem contar e confidenciar tudo o que descobrira.

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