A próxima tomada

 Ela vai com a mão, devagar, em direção à tomada.

Eu grito:

— Não faça isso! Você vai levar choque!

Olho para ela, abismado. 

Com seus trinta anos, ela não sabia disso?

Ela me olha com os olhos arregalados, como um gato curioso.

Inclina a cabeça suavemente para o lado, um leve sorriso, puro.

— Eu sei. Mas dessa vez pode ser diferente.

Fico olhando para ela, sem saber se falava sério ou não.

A mão vai novamente em direção à tomada; dessa vez, não impeço.

Ela puxa a mão de volta, com um pequeno grito abafado.

Olha para mim confusa, triste, decepcionada.

Mas ainda há uma inocência na forma como ela olha tudo.

Pego sua mão, afago de leve.

— Não, você não pode fazer isso. Você vai se machucar. Isso não é algo que vai mudar. Você sempre levará choque se fizer isso.

Ela me olha novamente, um pouco desconfiada.

— Como você sabe? — pergunta.

— Ué... eu sei. Isso é óbvio — respondo, confuso.

— Mas como você sabe que a próxima vez vai machucar de novo? Como você sabe todos os resultados daqui em diante? Você está dizendo que sabe o que vai acontecer daqui para frente com toda a certeza absoluta? — ela dispara.

Ao invés de desafio ou deboche na atitude dela, vejo que, de fato, ela realmente quer saber.

E eu não tenho a resposta.

Engulo seco.

— Ora, não é isso... é algo que todos nós sabemos. Já foi definido assim — falo, começando a ficar um pouco impaciente.

— Por quem? — ela pergunta.

Meu olhar e silêncio não a intimidam, sequer a afetam, pois ela continua esperando a resposta.

— Olha, eu não sei, ok? Eu não sei de tudo. Não fui eu quem fez as regras — digo, por fim.

— Então me deixa continuar tentando — diz, dando as costas para mim.

Poucas horas depois, vejo-a diante de outra tomada, olhando e levando a mão levemente, com um pouco de medo, pronta para se arriscar na busca pelo momento em que não irá se machucar.

Apenas fico observando de longe. Não impeço. Aprendi uma lição.

Levanto e coloco o dedo na tomada.

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