eu sou um livro de mistério
desses que você começa animado
folheia rápido, sublinha as primeiras frases
e pensa
“nossa, que empolgante.”
aí vira umas páginas
bate com umas sombras mais fundas,
uns capítulos que doem
umas partes que ninguém avisa que têm
e pronto
fecha a capa
me larga na mesa
me chama de previsível
de clichê
eu também sou porto
esse lugar onde todo mundo chega cansado
com cheiro de mar
pedindo pouso
pedindo cura
pedindo cuidado
eu dou
porque eu sou assim
porto não escolhe barco
só segura
mas ninguém fica
ninguém nunca fica
sempre tem um vento
um destino
uma pressa
um “depois eu volto”
que eu já sei que é mentira
e eu fico aqui
entre páginas nunca lidas
e cais vazios
fazendo o que sempre fiz:
parecendo forte
com medo de ser de novo deixada aberta
ou deixada pra trás
um porto pra quem só é nômade emocional
talvez por isso eu fuja primeiro
antes que fechem meu livro,
antes que soltem minhas cordas
antes que me digam que
“não era tudo isso”.
eu sei.
eu sempre sou o lugar de passagem
para pessoas que não sabem ler livros complexos
e não sabem permanecer em portos seguros
eu aceitei que existe uma camada da minha vida que sempre vai ser solitária
e isso não me causa mais dor
leia
atraque
parta
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