Recentemente me tornei vegana e posso dizer que o livro Saboroso Cadáver ( Agustina Bazterrica, 2022) influenciou nisso.
Quando paramos para pensar que o veganismo tem um dos pontos principais a defesa pela vida e pelo fim da crueldade com os animais, a gente sempre diz: se você não come cachorro, gato, porque come porco, boi e outros animais? Qual é a régua para escolher quem morre e quem vive?
A obra, ambientada em um futuro distópico onde o consumo de carne humana se torna legalizado, me confrontou com a dura realidade da exploração animal e me fez questionar minhas próprias escolhas alimentares.
O livro leva a questão ainda mais ao extremo: e se fossem humanos ?
Um dos pontos que me intrigou foi a relação do protagonista com os animais, sempre saudoso e protetor ( porém no final, ceifa a vida de Jasmine sem hesitar).
No centro da narrativa está Marcos, um açougueiro especializado em "carne especial", e sua relação complexa com Jasmine, uma "cria" destinada ao abate.
Marcos ao longo do livro nos mostra ser desprovido de humanidade, ceifando a vida de diversas pessoas, trabalhando e sendo bom nisso. É difícil se conectar com o personagem e torcer por ele, mesmo nos momentos onde o livro tenta nos levar a ter empatia.
Podemos refletir que ele tem seus sentimentos pelos animais, sente falta deles e até chega a querer protegê-los quando são colocados em perigo. Portanto, fica aí a dúvida se ele consegue discernir o peso de uma vida animal e de uma vida humana.
A relação com Jasmine é muito terna, dolorosa, reconfortante para ambos (e desconfortável para nós!!!!), pois ele vê nela um apoio emocional que não tinha mais da esposa e traz conforto ao lidar com o luto após perder um filho. Já ela tem o conforto de aprender e ser tratada como um "ser humano", quando ele tem cuidados de abraçá-la, dar banho e não a trata como apenas um pedaço de carne que irá comer (ao mesmo tempo que é EXTREMAMENTE problemático, se pensarmos que ela está sendo abusada e estuprada por ele constantemente), mas o desfecho do livro é ainda mais devastador.
Ele, após se aproveitar da vulnerabilidade da Jasmine, acaba por engravidá-la. Isso acaba sendo extremamente relevante e importante para ele, pois ele acabara de perder um filho. Ele então a cuida, sempre visando a proteção dela e do filho, até mesmo se colocando em risco. Você chega a pensar, "ele realmente deve gostar dela", pois em diversos momentos a autora coloca como ele quer ir para casa, para poder ficar com ela mais tempo.
No entanto, nas linhas finais, ele acaba por recorrer à esposa, por ser enfermeira, e esta auxilia no parto, compartilhando do mesmo sentimento de Marcos: uma nova vida, um novo filho. Logo em seguida, Marcos ceifa a vida de Jasmine e a esposa, sem entender, indaga sobre o porquê, afinal, ela poderia dar outros filhos para ele. Ele então dispara a máxima: "ela tinha o olhar humano do animal domesticado" e eu juro, foi como um soco no meu estômago.
Me senti enganada por acreditar que ele de fato teria sentimentos por ela, mas o que esperar de um açougueiro, não é mesmo?
As reflexões foram válidas, e abri mão do consumo de carne e produtos de origem animal, reconhecendo que tal prática não se alinha com a compaixão e o respeito que pretendo cultivar.
Recomendo a leitura e espero que possamos debater mais sobre o livro e suas reflexões.
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