uma cachaça, uma história

J fechou os olhos, respirando fundo. Sentia-se cansado, mas era mais do que físico.
A vida em si o cansava, com seus dias passando, rotina maçante e desilusões e tristezas misturadas a pequenos momentos de delicadeza.
Naquele dia, acordou com pensamentos de não viver. Essas vozes constantes em sua cabeça o entristeciam muito, pois havia um lado seu onde via beleza, encanto e vida em tudo. 
Adorava caminhadas noturnas. Pegou a chave e a jaqueta e saiu de casa.
Chuviscava de leve e quando passou por um poste de luz, consegui ver as gotículas caindo e achou aquilo tão belo e natural. Passou a mão nas folhas molhadas, sentindo as gotas molhando sua mão e causando deliciosa sensação. Eram esses pequenos detalhes que faziam ele entender que, ah, a vida é muito bela e preciosa. 
Era impressionante o tanto de vezes que ele morrera e ainda assim havia um no peito um coração pulsante e ardente. 
Ao mesmo tempo que J sentia raiva, tristeza, depressão por conta dos seres humanos e pela humanidade, ele se sentia encantado por conhecer pessoas e suas histórias. Talvez por ser um solitário quase misantropo, se isolava ao mesmo tempo que queria desesperadamente companhia. 
Passou por um beco meio escondido, onde tinha um morador em situação de rua deitado, sem cobertas e encolhido. Parecia estar tremendo de frio e aquilo partiu o coração de J. O que ele podia fazer, afinal?
Isso gerou a impotência que todos nós sentimos nessas situações. 
Ele continuou andando e encontrou um bar. Comprou uma cachaça e voltou onde o senhor estava. 
- Olá, boa noite. Não vou perguntar se está tudo bem, pois seria uma pergunta idiota. Eu queria saber se eu posso sentar com você e beber um pouco. 
O senhor olhou desconfiado, levantou e se sentou, acenando a cabeça e olhando para a cachaça. 
J comprou a cachaça não por achar que ele era um viciado, mas sim porque sabia que ela amolece e aquece o corpo. 
Ele estende a bebida para o senhor, perguntando seu nome. 
- É José. - Ele respondeu. - Obrigado pela bebida. 
J senta ao seu lado, e começa a se perguntar. Qual seria sua história? Por que estava ali? Ficou com receio de ser invasivo, mas decidiu perguntar a José 
O homem confidenciou que sua história não era tão diferente de tantas outras. Quando criança, seus pais eram desafortunados, mal conseguiam sustentar eles e os dois filhos. José começou a trabalhar cedo, para ajudar nas contas de casa. O pai era extremamente rígido e agressivo, e como era comum antigamente, batia e agredia seus filhos por vários motivos e várias vezes. A mãe, passiva e talvez temendo por si mesma, nada falava e essa situação ia se perpetuando.
Aos 17, não aguentou mais toda a situação em casa e decidiu sair. Trabalhava como ajudante de obra, e o que recebia era para pagar o aluguel. Mal conseguia comer, contando cada real. Mas achou que aquilo valia sua paz. 
Foi então que se apaixonou. Uma mulher tão bonita e tão doce. Ele acreditou que ela o salvaria dos próprios demônios. Estava errado.
Começou a beber cada vez mais e se transformava quando bebia. Ficava falando alto, estragava coisas dentro de casa e dentro de seu relacionamento. A esposa engravidou e ele pensou novamente que ela iria salvá-lo. Agora sim, tudo seria diferente.
 
Não foi.
Conheceu o demônio solidificado.
Crack.
 
O álcool era aliado, e juntos, foram rumo ao inferno e sua decadência.
A filha nasceu e era seu pequeno ponto de sanidade, a coisa mais importante de sua vida, algo transcendental. Vê-la crescer foi importante para ele, ao menos as partes que lembrava. 
No entanto, a droga e a bebida o deixavam cada vez mais fissurado, não conseguia trabalhar, começou a fazer pequenos furtos para conseguir se drogar.
Acabou sendo detido em uma dessas vezes, mas assim que foi liberado, foi para a rua e sua maldição de novo.
Chegou um dia completamente transtornado em casa. A esposa já não aguentava mais essa situação. O cúmulo foi quando ele gritou com sua filha e ameaçou fazer o mesmo que o pai fizera tantas vezes.
Ele olhou para si e se odiou com tanta repulsa que saiu de casa, andando sem rumo a princípio.
Não conseguia voltar. Não conseguia encará-las novamente. Não podia ser como seu pai.
Começou então a viver na rua, cada dia em um lugar, mas não conseguia mais ficar longe de casa e da sua família. Conseguiu tomar um banho, limpou as roupas como pôde e começou a se dirigir para casa.
Chegando lá, ele bateu na porta e a mulher abriu. Perguntou o que ele queria, estava raivosa e irritada, não o recebeu bem, como esperado. Ele pediu desculpas e disse que sentia falta delas. A mulher seguiu gritando e bradou: “você nunca mais verá nossa filha. Fique longe dela” e fechou a porta ameaçando chamar a polícia.
Naquele dia, José chorou e chorou e chorou. Havia destruído sua vida e não sabia como havia chegado naquele ponto, muito menos como consertar.
Uma coisa é certa: pessoas em situações de vulnerabilidade acabam por contar e conversar muito. São solitários e a rua é cruel e fria.
Ele bebeu um gole de sua cachaça, e virou para pegar uma coisa que estava guardada.
Era um caderno, com capa cheia de estrelas coloridas e brilhantes. Ele disse que a garotinha estava indo para o 2º ano e ele gostaria muito de poder entregar o caderno à garota. Dentro, ele disse ter escrito uma carta para ela.
Ele perguntou se podia confiar em J, se ele poderia entregar o caderno para ela. J, emocionado com toda a história e ao ver o estado do homem, disse que sim e o pegou.
O homem voltou a beber e olhar para o nada. Ele então disse:
- Sabe, Deus ainda é muito bom comigo. Eu sei que estou aqui, nessa situação, mas papai do céu não quer me ver mal. Se ele realmente não fosse bom comigo e tivesse pena de mim, eu estaria muito pior. Sou grato pela sua bondade.
J não soube o que dizer. Um homem no fundo do poço, no seu pior momento, mas a fé era inabalável.
Ele foi embora com um caderno, um endereço, um gosto amargo de tristeza, reflexões e o sentimento de impotência.
Quantos José estão espalhados por aí e as pessoas apenas olham com nojo, com desprezo, como se cada um deles não tivesse uma história, desejos, erros, falhas, fé.
Ele sabia que não podia mudar o mundo, mas naquele dia ele sentiu que podia. 

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