O insano do hospital



Estava acontecendo de novo. Seu pai, os encontros na cozinha pela madrugada. Ele nunca tivera sono bom, acordava a noite inteira para fumar. Talvez antigos hábitos de vigilante. De todo modo, ela parecia ter herdado isto dele. Costumava brincar dizendo que tinha sono parcelado em 6x, pois, de parcela em parcela, ia passando suas noites.

Nessa específico, ele estava extremamente pálido. Ela já ativou um alerta mental. Da última vez que ele tivera um infarto, ela estava ali. Todos os sinais. Ela tentava, de modo sutil, convencê-lo a ir ao hospital ou chamar a mãe, para que pudesse obriga-lo a ir. Porém, ele era demasiadamente teimoso.

Certa vez, uma telha caíra em sua cabeça. Com a cabeça sangrando, queria continuar trabalhando. Até que a mãe o arrastou para o hospital. O corte lhe rendera 7 pontos e uma cabeça parcialmente raspada, mas, por ele, não teria ido.

Da vez anterior, os médicos disseram que mais uns minutos, Nado poderia ter ido a óbito. Ela se desesperou, pensando que sua passividade poderia ter contribuído.

Portanto, dessa vez, ele passou a madrugada com dor no peito, achando que era falta de ar, além de dormência no braço. Ela esperou a primeira oportunidade e chamou a mãe. Avisou-lhe e lá foram eles, novamente para o hospital.

Ao chegarem lá, a história se repetia. Era o segundo infarto dele e mais alguns minutos, ele poderia estar morto. Mais um milagre. Uma salvação.

Sua vida nunca fora fácil. Desde criança, a vida não fora gentil com ele. Sim, nós sabemos, nunca é. Com praticamente ninguém. Mas ele continuava sobrevivendo, tendo novas e novas chances. E ele continuava ouvindo: “não é sua hora”.

Tinha seus hábitos perigosamente simples: cerveja, às vezes, uma cachaça. Fumava há mais de 30 anos. E sua alimentação consistia em comer o que quisesse, até ter retirado a vesícula, onde teve que mudar radicalmente sua vida e alimentação.

Ele, aos poucos, foi voltando a comer. Uma rabada ali, feijão com carne de porco, costelinha, churrasquinho com carne mal passada e gordurinha. Acontece que não bastasse os problemas de vesícula, pressão alta, também estava com diabetes.

Às vezes batia um desespero geral. Ele e a mãe estavam ficando velhos. 54 e 53, respectivamente. A saúde dos dois estavam esvaindo aos poucos, assim como a chegada iminente de uma preocupação com a fragilidade da vida.

Mas ele se recusava a mudar radicalmente de vida e ela conseguia compreender. Por mais que doesse, que desse raiva, que parece egoísta...era real. Não adiantava correr contra o tempo, se tornar um perfeito modelo de saúde, pois além de infeliz, não impediria que ele chegasse á morte, assim como todos nós. Não fazia sentido viver seus últimos tempos se punindo em vão.

Ele ficou 11 dias internado. Fez cateterismo, angioplastia. Tomava injeções na barriga todos os dias, uma dor insuportável. Ritmou o aparelho que o enlouquecia.

E foi nesse período que aconteceu essa história.

Ele já trabalhara de diversas coisas, entre elas, pintor. Sempre foi ótimo com os detalhes, cores. Tinha a veia artística. E então, ele fez quadros, fazia desenhos temáticos, às vezes, só rabiscava.

Mas era notório seu capricho e talento. Todos elogiavam suas obras, até chegar a fazer uma exposição para tentar vende-los.

Não foi tão bem sucedido. Todo o material gasto, empenho, dinheiro...E quase nenhum retorno além de elogios.

Ele foi deixando, então, tudo isso de lado.

Os quadros foram ficando ali, empoeirados. Não comprou mais lápis. Sua prancheta foi ficando de escanteio.

Era como se...tivesse adormecido.

Ela sabia como era. Escrevera desde criança, adolescente e um belo dia, teve uma depressão tão profunda que a voz poética se calou. Durante três anos, ficou adormecida. Acreditava que nunca mais faria arte, até que um dia, algo especial aconteceu e ela voltou.

Poderia ser assim com ele também, ela pensava. Todos tinham seu tempo.

Foi quando, depois desse infarto, em alguns dos momentos que ele pensou que enlouqueceria de dor, desespero, agonia que em sua mente veio o pensamento.

Havia um homem, na maca a frente, no mesmo quarto. Ele desenhava. Em sua maioria, símbolos de time, coisas simples. E recebia um incentivo ou outro.

Nado então pensou consigo que talvez desenhar fosse uma boa opção para distrair a mente e assim o fez.

Pegou um prato descartável velho e usado e desenhou uma paisagem nos fundos. A mãe, que acompanhara ele durante todos os dias, ficou feliz em vê-lo voltar a desenhar. Elogiou e empolgada, levou no dia seguinte folhas, prancheta, borracha e lápis.

E então, ele voltou. Decidiu desenhar um desenho para cada filho. Para o caçula, desenhou uma onça em uma paisagem linda, todo esfumado. E a esposa e enfermeiras começaram a elogiar seu desenho.

Ele ficou feliz, pois além de voltar com um hobby, conseguia se distrair até poder sair daquele lugar.

Por causa da pandemia, não podiam receber visitas e era bastante solitário para ele, especialmente quando a esposa não ia.

Em um dia então, ele mandou mensagem para a mulher. Um homem doido no corredor tinha atacado ele.

Todos ficaram apavorados e preocupados. Como assim??

Segundo ele, o homem o acusara de roubar o seu copo descartável.

Ninguém entendeu absolutamente nada. Em meio ao hospital, com tantos problemas, pandemia, porque diabos ele roubaria um copo descartável ???

Ficaram revoltados, fizeram reclamação e tudo começou a virar uma confusão.

O pai começou a evitar o homem, com receio. Imaginou que era louco. Depois, começou a desconfiar que era drogado. Provavelmente, os dois.

 

No dia seguinte, ele continuava desenhando e recebendo incentivos e elogios, e o homem ainda o olhava de com certa agressividade e raiva.

Os enfermeiros vieram para trocá-lo de quarto. Ele ficou irado e começou a acusar Nado de ter reclamado dele, de ter tirado ele do quarto, de estar conspirando contra ele.

Esse homem enlouquecido estava certo de que o pai era um alvo, alguém com quem ele implicou e agora tudo que ele fazia poderia ser considerado como certa perseguição.

Nado continuava na sua, porém, não deixou de temer. Começou a ouvir que ele era ex-presidiário, que era violento e perigoso. Ele soava em tom de ameaça.

Diante de tantas confusões, Nado não quis sequer tomar o medicamento para dormir. Seria baixar a guarda e Deus sabe o que esse homem faria enquanto ele tivesse dormindo.

Nessa noite, o homem pegou o suporte de ferro para soro, encarando Nado, sendo que nem sequer estava no soro.

Nado ficou apreensivo, pois aquilo facilmente poderia ser uma arma. Não era mais tão jovem e saudável como antes. Se tivesse que lutar ou brigar com alguém, provavelmente se machucaria.

Ainda mais em seu estado.

Passou a noite em alerta e por fim, nada aconteceu.

O tal homem confessou ser usuário de drogas e a agressividade e mania de perseguição proviam de abstinência, muito provavelmente.

Naquele dia, ele saiu do quarto e quando Nado contou a historia para os filhos e esposa na mesa de casa, já em alta, todos chegaram a conclusão de que provavelmente era ciúmes devido ao fato de que Nado “desenhava melhor”.

Entre aspas porque todos tem seu estilo artístico, todos tem o dom, o talento de acordo com o que o público em si considera.

O homem provavelmente ficou irado pela falta de reconhecimento e elogios, enquanto Nado, só queria fazer arte para tentar organizar o leve caos em sua mente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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